Memória

O relógio de parede que marcou o bairro inteiro

Dona Zulmira, 84 anos, vive na mesma casa desde 1963. O tique-taque do relógio alemão na sala ainda orienta a rotina de quem mora por perto.

Encontrei Dona Zulmira numa tarde de outono em que a Rua das Acácias estava quieta demais. A cortina de renda da janela deixava entrar uma luz dourada que pousava sobre o sofá de palhinha e sobre o rosto dela — rugas profundas como sulcos de estrada, olhar atento, mãos que ainda sabem consertar qualquer coisa. Ela me recebeu com café coado na meia hora e uma história que começou antes de eu nascer.

Sala de estar com relógio de parede antigo, sofá de palhinha e luz entrando pela janela
A sala de Dona Zulmira permanece praticamente intocada desde os anos 1960. Foto: Marina Costa

O relógio, disse ela apontando para a parede, veio da mão de um alemão que passou pelo bairro vendendo bugigangas depois da guerra. Seu Geraldo — que trabalhava na ferrovia — guardou dinheiro durante meses para comprá-lo. «Não era só um relógio», ela repetiu duas vezes, como quem precisa que a frase fique registrada. «Era a promessa de que a gente ia ficar.»

Seu Geraldo era homem de poucas palavras e muita precisão. Pendurou o relógio numa sexta-feira à tarde, depois de furar a parede três vezes até acertar a altura. Zulmira lembra do cheiro de pó de tijolo, do suor no rosto dele, do silêncio em que os dois ficaram olhando o ponteiro grande fazer o primeiro movimento completo. «Foi a primeira coisa nossa que ficou fixa na parede», disse. Antes, moravam de aluguel e levavam tudo na mudança.

«Parar o relógio seria parar ele de existir aqui.»

Durante décadas, vizinhos batiam na porta para acertar os relógios de pulso pela hora da sala de Dona Zulmira. Crianças aprendiam a ler o tempo olhando aquele mostrador redondo com números romanos desbotados. O carteiro sabia que podia deixar correspondência depois das onze, porque era quando ela terminava de lavar a louça. O padeiro, que passava às seis e meia, ouvia o tique-taque da calçada e acelerava o passo para não atrasar a entrega.

Quando Seu Geraldo morreu, em 1998, ela não parou o mecanismo nem por um dia. «Parar o relógio seria parar ele de existir aqui», disse, e eu entendi que fotografar aquele objeto era fotografar um pedaço inteiro de memória coletiva. Na semana do velório, três vizinhos diferentes pediram para ouvir o tique-taque — como quem precisa confirmar que alguma coisa continuava no lugar.

Passei três tardes na casa dela. Fotografei as mãos enrugadas girando a chave de corda toda semana, o pó dançando no feixe de luz, o reflexo do visor no espelho embaçado do corredor. Cada imagem era um capítulo: a chegada dos netos, a reforma que ela recusou fazer na sala «para não mudar a acústica do tique-taque», a lista de telefones rabiscada ao lado do aparelho fixo que ninguém disca mais.

O bairro mudou. O açougue do Seu Nilo virou academia, o cinema Art Deco virou igreja evangélica, os jovens saem cedo e voltam tarde sem cumprimentar quem passa. Mas às doze horas em ponto, quem ainda mora por perto sabe: é hora de Zulmira almoçar, e o relógio continua contando uma história que nenhum aplicativo consegue substituir.

Na última tarde, ela me mostrou um álbum de fotos onde Seu Geraldo aparece em frente ao relógio recém-instalado — camisa branca, expressão séria, relógio de pulso ainda não sincronizado. «Olha como ele era bonito», disse, sem nostalgia exagerada, com a naturalidade de quem fala de alguém que nunca foi embora de verdade.

Saí quando o sol começou a descer e o tique-taque ficou mais audível no silêncio da rua. Do lado de fora, uma menina de uniforme escolar passou correndo e olhou para a janela de Zulmira. «Boa tarde, vó!», gritou, sem parar. Zulmira acenou da poltrona. O relógio marcou quatro e quinze. Ninguém precisou consultar o celular.