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O relógio de parede que marcou o bairro inteiro

Dona Zulmira mora na mesma casa há sessenta e dois anos. O tique-taque do relógio alemão na sala é o mesmo desde que seu marido, Seu Geraldo, o pendurou em 1961 — e é por esse som que meio bairro ainda marca a hora do almoço.

Encontrei Dona Zulmira numa tarde de outono em que a rua estava quieta demais. A cortina de renda da janela deixava entrar uma luz dourada que pousava sobre o sofá de palhinha e sobre o rosto dela — rugas profundas, olhar atento, mãos que ainda sabem consertar qualquer coisa. Ela me recebeu com café coado na meia hora e uma história que começou antes de eu nascer.

O relógio, disse ela apontando para a parede, veio da mão de um alemão que passou pelo bairro vendendo bugigangas depois da guerra. Seu Geraldo — que trabalhava na ferrovia — guardou dinheiro durante meses para comprá-lo. «Não era só um relógio», ela repetiu duas vezes, como quem precisa que a frase fique registrada. «Era a promessa de que a gente ia ficar.»

Durante décadas, vizinhos batiam na porta para acertar os relógios de pulso pela hora da sala de Dona Zulmira. Crianças aprendiam a ler o tempo olhando aquele mostrador redondo com números romanos desbotados. Quando Seu Geraldo morreu, em 1998, ela não parou o mecanismo nem por um dia. «Parar o relógio seria parar ele de existir aqui», disse, e eu entendi que fotografar aquele objeto era fotografar um pedaço inteiro de memória coletiva.

Passei três tardes na casa dela. Fotografei as mãos enrugadas girando a chave de corda, o pó dançando no feixe de luz, o reflexo do visor no espelho embaçado do corredor. Cada imagem era um capítulo: a chegada dos netos, a reforma que ela recusou fazer na sala «para não mudar a acústica do tique-taque», a lista de telefones rabiscada ao lado do telefone fixo que ninguém usa mais.

O bairro mudou. O açougue virou academia, o cinema virou igreja evangélica, os jovens saem cedo e voltam tarde sem cumprimentar quem passa. Mas às doze horas em ponto, quem ainda mora por perto sabe: é hora de Zulmira almoçar, e o relógio continua contando uma história que nenhum aplicativo consegue substituir.

Por Marina Costa · domingo, 12 de junho de 2026 · Ler reportagem completa

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